14° Dia de Estudo Bíblico
- Aprondamentos dos Sentidos Espirituais e método de leitura da Bíblia.
- O Sentido Espiritual Moral: Uma Chamada à Ação Justa
- O Sentido Espiritual Anagógico: Olhando para a Eternidade
- Como Fazer a Leitura da Bíblia: O Exemplo da História de Sansão
- Método de Estudo Bíblico
- Conclusão
Aprondamentos dos Sentidos Espirituais e método de leitura da Bíblia.
Boa noite! Bem-vindo ao este 14° Dia de Estudo dedicado ao aprofundamento da Palavra de Deus. Hoje, reforçaremos os sentidos espirituais da Bíblia, com ênfase no sentido moral e anagógico, guiados pela doutrina da Igreja, pelos Santos Padres e por exemplos bíblicos.
Essa abordagem nos ajuda a ler a Escritura não apenas como um texto histórico, mas como uma fonte viva de orientação para a vida eterna. Vamos nos inspirar na unidade da Revelação, onde o Antigo e o Novo Testamento se iluminam mutuamente, sempre à luz de Cristo.
O Sentido Espiritual Moral: Uma Chamada à Ação Justa
O sentido espiritual moral é uma das subdivisões do sentido espiritual da Escritura, que vai além do literal para nos ensinar como viver de acordo com a vontade de Deus. Ele nos convida a refletir sobre os acontecimentos bíblicos como lições para o nosso comportamento diário, promovendo a virtude e evitando o pecado.
Como explica o Catecismo da Igreja Católica no parágrafo 117 (citado integralmente):
O sentido espiritual. Graças à unidade do desígnio de Deus, não só o texto da Escritura, mas também as realidades e acontecimentos de que fala, podem ser sinais. O sentido alegórico. Podemos adquirir uma compreensão mais profunda dos acontecimentos, reconhecendo o seu significado em Cristo: por exemplo, a travessia do Mar Vermelho é um sinal da vitória de Cristo e, assim, do Baptismo (91). O sentido moral. Os acontecimentos referidos na Escritura podem conduzir-nos a um comportamento justo. Foram escritos «para nossa instrução» (1 Cor 10, 11) (92). O sentido anagógico. Podemos ver realidades e acontecimentos no seu significado eterno, o qual nos conduz (em grego: «anagoge») em direcção à nossa Pátria. Assim, a Igreja terrestre é sinal da Jerusalém celeste (93).
Aqui, vemos que o sentido moral nos instrui a agir com retidão, transformando a Palavra em um guia ético para a santidade.
Um exemplo clássico é o Salmo 136,8-9:
“Feliz aquele que te retribuir o mal que nos fizeste. Feliz aquele que se apoderar de teus filhinhos, para os esmagar contra a rocha!”.
À primeira vista, esse texto pode parecer violento, mas Santo Agostinho, em suas Enarrationes in Psalmos 136,21-22, oferece uma interpretação profunda no sentido moral, vendo nele uma batalha espiritual contra o pecado. Citando integralmente a explicação de Santo Agostinho:
“Feliz aquele que te retribuir o mal que nos fizestes. De que retribuição se trata? Com a que encerra o salmo: Feliz aquele que se apoderar de teus filhinhos, para os esmagar contra o rochedo! Está é a retribuição. Que nos fez está Babilônia? Já o cantamos em outro Salmo. As palavras dos iníquios prevaleceram sobre nós (Salmo 64,4) Pois ao nascemos, pequeninos ainda veio ao nosso encontro a confusão deste mundo. Ainda pequeninos sufoco-nos com vãs opiniões de diversos erros. Nasceu o menino, futuro cidadão de Jerusalém, já cidadão na predestinação de Deus, mas nesse ínterim cativo e aprender a amar o que lhe insinuam os pais. Instruem-no e ensinam-lhe a avareza, as rapinas, as mentiras cotidianas, os cultos de vários ídolos e demônios, os remédios ilícitos dos encantamentos e amuletos. Que há de fazer o menino, alma tenra, observando os que fazem os maiores, senão seguir aquilo que os ver praticando? Portanto, perseguiu-nos Babilônia quando ainda éramos pequenos, mas ao crescemos, Deus nos deu conhecimento de si, a fim de não seguirmos os erros de nossos pais. Eu o relembrei então, conforme predito pelo profeta: Para ti ocorrem as nações das extremidades da Terra. Elas terão: Nossos pais não adoraram serão mentira vazio que não seve para nada (Jr 16,19). Falam os jovens da infância que seguiam coisas vãs. Rejeitando porém, essas coisas vãs, e revivendo progridem em direção a Deus e retribuam a Babilônia. Que retribuição lhe darão? Aquele que ela nos deu. Seus filhos pequenos, por sua vez, sejam sufocados ou antes seus pequeninos sejam esmagados, e moram. Quais são os filhinhos de Babilônia? As concupiscências, logo ao despertarem. Existem os que combatem velha cupidez. Ao nascer a cupidez, antes que se fortaleça contra ti, pelo mau hábito enquanto é pequenina, não receba do modo algum o reforço de um mau costume. Enquanto é pequena, esmaga-a. Mas se receias que esmagada não morra, esmaga-a contra a ‘pedra’. Essa rocha era Cristo (1Cor10,4). Irmão que os instrumentos não deixem de soar, cantai uns para os outros os cânticos de Sião. Quanto maior a boa vontade de ouvir, ser salgueiros de Babilônia, irrigados de seus rios, e infrutíferos. Mas suspirar pela Jerusalém eterna. Vossa vida acompanhe a esperança que vos precede. Lá estaremos com Cristo. Agora Cristo é nossa Cabeça, governa-nos lá do alto. Abraçai-lo-emos naquela cidade. Seremos iguais aos anjos de Deus. Não ousariamos imaginá-los, se não no-lo houvesse prometido a própria Verdade. Anelai por isso irmãos pensão nisso dia a noite. Não presumais de coisas alguma que vos sorria das felicidades mundanas. Não dialogues livremente com vossos concupiscências. O inimigo é grande, seja morto contra pedra é pequena, seja esmagado contra a pedra. Vença a pedra. Constrói sobre a pedra se não quereis ser arrastados pelo rio , pelo ventos, pelas chuva. Se quereis estar armados contra as tentações no mundo, cresça e se robusteça o desejo da Jerusalém eterna em vossos corações. O cativeiro passará, virá a felicidade, será condenado o maior do inimigos e com nosso rei, livres da morte, triunfaremos”. Santo Agostinho interpreta o Salmo moralmente como uma luta contra as concupiscências (desejos pecaminosos), que devem ser “esmagados contra a rocha” – Cristo (1 Cor 10,4).
Resumindo o Salmo 136:
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Babilônia = escravidão do pecado.
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Filhinhos da Babilônia = concupiscências (paixões desordenadas).
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Rocha = Cristo, nossa força e libertação.
Por isso, precisamos da Igreja e de seus Santos Padres, como Agostinho, para interpretar as Sagradas Escrituras corretamente.
Eles, iluminados pelo Espírito Santo, evitam erros e nos guiam à verdade plena, conforme a Tradição apostólica.
O Sentido Espiritual Anagógico: Olhando para a Eternidade
O sentido anagógico é outra subdivisão do espiritual, que nos conduz ao significado eterno das realidades bíblicas, apontando para a vida futura e a glória celestial.
Etimologicamente, “anagógico” vem do grego ana (para cima) e ago (conduzir), significando “conduzir para cima”, ou seja, elevar nosso olhar para o céu e a eternidade.
Ele tem valor eterno, revelando como os eventos terrenos prefiguram a Pátria celeste.
Um exemplo é Colossenses 3,1-4 (citado integralmente):
“Se, pois, fostes ressuscitados com Cristo, buscai as coisas lá do alto, onde Cristo está sentado à direita de Deus. Afeiçoai-vos às coisas lá de cima, e não às da terra. Porque estais mortos e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus. Quando Cristo, nossa vida, aparecer, então também vós aparecereis com ele na glória.”
Aqui, o sentido anagógico nos exorta a buscar a glória eterna: nossa vida “escondida com Cristo” aponta para a ressurreição final e a união com Deus no céu, elevando-nos além do temporal.
Essa visão conecta-se à frase de Santa Terezinha do Menino Jesus: “Vou passar meu céu, fazendo o bem na terra”. Ela expressa o anagógico ao mostrar que a santidade na terra nos conduz à eternidade, onde os santos intercedem por nós, unindo céu e terra na Comunhão dos Santos.
Como resume o Catecismo da Igreja Católica no parágrafo 118 (citado integralmente):
Um dístico medieval resume a significação dos quatro sentidos: «Littera gesta docet, quid credas allegoria. Moralis quid agas, quo tendas anagogia». «A letra ensina-te os factos (passados), a alegoria o que deves crer, a moral o que deves fazer, a anagogia para onde deves tender» (94).
Como Fazer a Leitura da Bíblia: O Exemplo da História de Sansão
Para ilustrar a aplicação prática, usemos a história de Sansão, do Livro dos Juízes (Jz 13-16).
Breve resumo: Sansão, nazireu consagrado a Deus desde o nascimento, recebe força sobrenatural para libertar Israel dos filisteus. Enfraquecido por Dalila, que descobre o segredo de sua força (seus cabelos não cortados), ele é capturado, cegado e escravizado. No fim, Sansão pede a Deus força uma última vez e, ao derrubar as colunas do templo filisteu, mata milhares de inimigos e morre com eles (Jz 16:28-30).
Agora, apliquemos os quatro sentidos:
Leitura Literal (a letra): O relato histórico do que aconteceu com Sansão, um juiz de Israel que recebeu força de Deus para combater os opressores. Devemos crer que Deus age na história, concedendo força aos seus eleitos, e que o mesmo Deus nos dá força para a eternidade (Ef 3,16).
Leitura Alegórica: Sansão prefigura Cristo, perseguido e traído (como por Dalila), mas vitorioso. Nós, cristãos, somos perseguidos por pessoas más e pelo inimigo espiritual (Ef 6,12), mas não devemos nos desviar da fé em Deus.
Leitura Moral: O que devo fazer? Aprender com a ingenuidade de Sansão, que revelou seu segredo: evitar o mal, guardar os segredos da fé e lidar com os “filisteus” da vida (pessoas ou tentações que nos enfraquecem) com prudência e oração, buscando força em Deus para praticar o bem.
Leitura Anagógica: Para onde devo caminhar? A morte de Sansão, unida à vitória, aponta para a ressurreição e a glória eterna, onde Deus nos concederá força definitiva contra o mal, conduzindo-nos à Jerusalém celeste.
Método de Estudo Bíblico
Ao ler as passagens da Bíblia, use estes quatro elementos para refletir a Palavra de Deus:
Letra: O que aconteceu? (Sentido literal: fatos históricos). Alegoria: O que devo crer? (Significado em Cristo e na Igreja). Moral: O que devo fazer? (Lição ética para a vida). Anagógica: Para onde devo caminhar? (Direção eterna).
Conclusão
A Bíblia não se contradiz: ela se completa. Os Santos Padres nos ensinam que cada palavra da Escritura tem profundidade espiritual que nos conduz ao Cristo.
Como diz Santo Agostinho:
“O Novo Testamento está latente no Antigo, e o Antigo está patente no Novo.”
Portanto, estudar a Bíblia à luz da Tradição viva da Igreja, seguindo a orientação dos Padres e Doutores, é caminho seguro para vivermos a fé de forma integral, moral e com os olhos voltados para a eternidade.
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