Morre o historiador italiano Carlo Ginzburg aos 87 anos

O historiador italiano Carlo Ginzburg, considerado um dos intelectuais mais influentes do século XX e pioneiro da micro-história, morreu aos 87 anos. Autor de obras como "O Queijo e os Vermes", Ginzburg era conhecido por analisar grandes processos sociais a partir de trajetórias individuais.
Morre o historiador italiano Carlo Ginzburg aos 87 anos

Morre o historiador italiano Carlo Ginzburg aos 87 anos A morte de Carlo Ginzburg, aos 87 anos, expõe um paradoxo raro: um historiador que virou clássico justamente por desafiar os “grandes” modelos da História. Entre elogios quase unânimes, o debate reaparece onde ele sempre viveu: no atrito entre micro-história, política e verdade histórica.

De um lado, os obituários sublinham o pioneiro metodológico. Ginzburg é apresentado como referência da “micro-história”, pesquisa ancorada em casos minúsculos para contestar explicações totalizantes da História, “como o marxismo”. O foco recai na obra-símbolo, O queijo e os vermes, em que ele reconstrói a visão de mundo de um moleiro do século XVI perseguido pela Inquisição, hoje um “clássico amplamente traduzido” e “referência internacional da historiografia”.

Outra vertente das homenagens enfatiza o intelectual antifascista e de esquerda. A biografia familiar – filho do militante antifascista Leone Ginzburg, assassinado pelos nazistas, e da escritora Natalia Ginzburg – aparece como matriz de um engajamento que vai da cultura popular aos tribunais: Ginzburg comparou o julgamento do amigo Adriano Sofri, jornalista de extrema esquerda condenado por assassinato, aos processos de bruxaria dos séculos XVI e XVII, apontando “um erro do Judiciário”. Aqui, a narrativa oficialista tende a valorizar o humanismo crítico, mas sem explorar demais o atrito com instituições judiciais.

Um terceiro eixo destaca o combativo teórico da verdade histórica. Em contraste com colegas “pós-modernos”, Ginzburg ficou marcado pelos “embates com colegas ‘pós-modernos’, que afirmam a impossibilidade de se traçar um limite entre fato e ficção”. Os perfis lembram um autor que via na investigação minuciosa – de bruxas, moleiros, heresias – não um relativismo, mas a prova de que é possível, sim, falar em verdade histórica.

Entre Estado, academia e mercado editorial, o consenso é raro: ao olhar para um moleiro anônimo, Ginzburg acabou iluminando o poder – e seus abusos – em escala global.

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